19 de fev de 2013

Sinto muito, mas não estou à venda...

Sim, sou vagabunda. 


Estranho iniciar um texto assim, mas já começo avisando que não sou aquela queridinha do papai que fez a faculdade dos sonhos, passou num super concurso público e casou com um empresário riquíssimo e sadomasoquista. Não, eu fui contra o sistema. 

 Trabalho com Gestão Cultural. Nado nos chafarizes da Praça da Estação, como o delicioso bolinho de bacalhau no Nelson Bordello, vou a praticamente 55 peças de teatro/dança por ano, vou ao cinema no 104, danço na Corte Devassa nos dias de carnaval... 

Por isso mesmo, sou vagabunda. Porque, simplesmente, trabalho e sou amante da arte. Porque fui bailarina por anos e fiz outros muitos de teatro. Porque dancei, interpretei e, hoje, fico atrás das cortinas trabalhando para que tudo dê certo. O quê? TRABALHANDO?

Sim, sou uma vagabunda que trabalha. Que estudou, se especializou. E muito. E que se especializa cada vez mais. EM CULTURA. EM ARTE. EM GENTE. Passo madrugadas elaborando projetos para Leis de Incentivo, corro de um lado para o outro atrás de produtores, assessores de imprensa, busco artistas em aeroporto, faço reunião com empresas para captar recursos...  É muita vagabundice, certo?

Não quis enfrentar as mesas de um concurso público. Não quis seguir carreira jurídica. Não quis usar tailleur. Não quis ter um carro. Não quis ficar na casa dos meus pais. Não quis ficar quieta. Quis ser vagabunda.

Quis rodar o mundo e estudar fora. Quis visitar museus. Quis ficar debaixo das obras do Rodin para ouvir o silêncio de sua arte. Quis me deliciar no Pompidou. Quis apertar a orelha de Van Gogh. Quis colocar meu nariz de palhaço e sair por aí. Quis viajar ao Rio só para ir ao Museu de Arte Moderna admirar as obras da Adriana Varejão. Quis ir a Inhotim várias vezes para ouvir as caixas de som. 

Tudo o que quis, eu fiz. 
Tudo com arte. Tudo com cultura.

Mas não, não estou à venda.
Meu trabalho que está à venda. 
Porque sou vagabunda, mas quero receber por isso... E não quero receber em selos, vinhos, bloquinhos, camisetas. O escambo saiu de moda junto com as caravelas. 

Como escreveu DIOGO SALLEStrabalhe de graça para mim — em troca eu vou te catapultar ao total estrelato”. A situação está sendo subvertida a tal ponto que, se o artista recusar a “oferta”, chega-se a uma estranhíssima inversão de papéis.De repente é como se o artista devesse agradecer aos céus por uma oportunidade como essa (quiçá ele até terá de pagar para poder publicar em um espaço tão ilustre que ninguém lê, nem compra e nem acessa)."


Muitas vezes, quando vou elaborar um projeto cultural e envio minha proposta de remuneração, me deparo com a pergunta: "Peraí, mas você vai cobrar"?????
E assim há a inversão de papéis, onde me deparo novamente com outra bizarria: "Mas você vai trabalhar pra mim, vou te dar NOME!". Ok, chapa, seguinte, meu nome foi-me dado quando nasci, inclusive sem meu consentimento, já que este direito foi desprovido do nascituro. 

E infelizmente, meus 15 minutos de fama não serão de graça. Nem BBB "trabalha de graça", meus sais!!! Por que eu, que estudei e quis ser vagabunda, tenho que fazer filantropia? 

Trabalho de graça em projetos sociais que me dão um retorno maravilhoso: gratidão. Mas viver 100% disso, só quem tem pai ou marido rico, ou nasceu com problemas na caixola. 

Pois é, minha gente, vou cobrar pelo meu trabalho sim. Porque tenho contas a pagar, burocracias para viver, muitas obras para produzir, muito estudo para aprofundar e muita viagem para deleitar. Entendeu? Não? Ok, vou desenhar:





4 comentários:

Fabricio R. Ferraz disse...

Esse absurdo já aconteceu comigo algumas vezes. Quando me pediram uma consultoria em Gestão Documental na empresa do dono da Faculdade que eu trabalhava.
Quando disse o valor do "serviço" ele disse que trabalhava para a faculdade dele e não poderia cobrar.

Flavia nunca trabalhe de graça nem mesmo quando a causa for nobre rsrsrssr
bjsss

Gugu Keller disse...

Pois é... Parece inexorável ser o dinheiro um mal necessário...
GK
Obrigadíssimo por tua presença em meu blog!
Já escrevi, amiga, quatro peças de teatro. Ficaria muito honrado se um dia vc pudesse ler uma delas...

Hele Helena disse...

Pois e. Perdeu varias noites de sono investindo em projetos, para, no final ficar de graca. Cobre tudo que tem direito. nem relogio trabalha de graca. absurdo.

Leoa disse...

VAGABUNDA NÃO! Corajosa!

Postar um comentário